sala de espera
estou cansada de estar em situação de ânsia de ter, quero também o tédio de possuir
no exato momento em que publico esse texto, 20 de janeiro, 21h da noite, eu estou esperando que uma coisa me aconteça. que coisa é essa não vem ao caso e também nem faz diferença para a história fazer sentido. o que importa aqui é que eu estou há meses esperando que essa coisa me aconteça.
coisa essa que, inclusive, não depende de mim, ou seja, tudo que eu posso fazer agora é esperar. só que essa condição de espera me dá tempo suficiente para pensar, pensar, pensar, pensar e pensar. pensar a ponto de achar que eu não consigo ser feliz até que essa coisa me aconteça. essa é a minha tentativa de mudar esse pensamento deprimente.
um exemplo prático
durante muito tempo da minha vida, eu quis fazer faculdade de jornalismo. isso não foi possível quando eu saí do ensino médio, porque eu não tinha grana, então fiquei um ano entrando em uns cursos aleatórios e depois fui fazer uma faculdade baratinha de RH.
quando me formei em RH, decidi estudar pra tentar passar em jornalismo numa universidade pública, mas eu não tinha grana pra pagar cursinho nenhum, ou seja, tive que estudar sozinha com o que tava disponível de graça na internet. eu estudei bastante nesses dois anos, mas não deu certo.
fun fact: eu não passei, mas cheguei a tirar 960 na redação do enem estudando sozinha em casa, ou seja, houveram algumas pequenas vitórias nesse processo. ah, eu também fumei 700 toneladas de marlboros ligths nesse período e tive um burnout.
enfim, no total ficou assim: 1 ano sabático + 2 anos num curso que eu odiava + 2 anos estudando pra passar num vestibular que eu nunca passei. se tenho alguma aptidão para cálculos matemáticos, foram 5 anos me torturando todos os dias com o pensamento de que eu só seria feliz depois que entrasse na faculdade de jornalismo.
o desfecho? em 2022, consegui um bom desconto na USJT (que não é uma ótima universidade, mas é a que eu conseguia pagar) e esse ano me formo em jornalismo. e continuo infeliz.
quer dizer, infeliz é uma palavra muito forte, eu não sou infeliz, mas eu certamente não fui iluminada com a felicidade plena que eu esperava que me atravessasse e se mantivesse em mim no momento em que eu entrasse na faculdade.
inclusive, hoje eu reconheço que todo o meu processo pré faculdade seria muito menos estressante se eu não tivesse colocado a minha felicidade inteira nas mãos disso. eu sempre penso que se eu tivesse passado todos aqueles anos focando no caminho e não na linha de chegada, os meus marlboros teria sim um sabor mais doce.
sala de espera
me sinto agora numa sala de espera, assim como também estava no momento em que “esperava” que a faculdade de jornalismo me acontecesse. só que dessa vez, ao invés de condicionar toda a minha vida ao momento em que serei chamada para o atendimento, eu estou procurando preencher meu tempo com outras coisas. dessa vez, eu trouxe meu kindle, meu fone de ouvido, minhas coisas do bordado, meus cadernos e minhas canetas. não quero idealizar a felicidade que eu vou sentir quando a próxima coisa me acontecer, quero entender como posso tornar o processo até lá um pouco mais feliz.
a felicidade não é permanente
acho que o que eu quero dizer está bem resumido no trecho abaixo do vídeo “como a vida moderna destrói o seu foco” do ludoviajante (você pode assisti-lo clicando aqui.)
“a vida não é um jogo que se ganha, é um oceano. se focarmos só na próxima meta, corremos o risco de ficar girando, à deriva. em algum momento é preciso definir um norte, não pela expectativa de chegar lá, mas pela intuição de que há um caminho interessante. felicidade não é o destino, é o navegar.”
no fim, nossa vida é o que acontece enquanto a gente espera. se nos for dada a opção, que escolhamos sempre não tornar nosso próprio caminho uma tortura. que procuremos sempre uma maneira melhor de passar o nosso tempo.
as três frases da semana
“Oscar Wilde dizia que algumas coisas são importantes demais para serem levadas a sério. A arte é uma delas.”
Trecho do livro “O ato criativo: uma forma de ser”, de Rick Rubin.
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"Nada pode afogar o espírito de quem se permita recomeçar”
Trecho do mesmo vídeo do Ludo que eu citei acima.
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“Meu bem, não chore
Agora nem tem mais o que fazer
Respire fundo
Com calma tudo vai acontecer
As ondas seguem indo e vindo
Mesmo se você não vê
As grandes dúvidas desaparecem
Quando o sol aparecer.”
Trecho da música “mesmo se você não vê” do Tim Bernades, para todos que, assim como eu, estão em situação de sala de espera.
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obrigada por chegar até aqui (de coração) <3 e eu espero que esse texto tenha feito algum sentido.




Como disse a diva Diane de Bojack horseman: " o que está feito está feito". a vida continua, apesar de todas as agonias, decepções, felicidades, atitudes e pensamentos... ela apenas continua... (oii ale, te conheci hoje mesmo, e já amei muito tudo que vc escreve, você me entende como ninguém. obrigada. até logo!
sinto tudo isso, e ao mesmo tempo que sinto essa agonia constante de esperar por algo que vá me trazer felicidade, eu sei que sou muito nova pra ficar agoniada com o que o tempo vai me trazer aos pouco (ou não vai), por que nós somos assim??? ler o seu post me fez bem, porque frequentemente eu esqueço que outras pessoas passam pelo o que eu passo!